Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação (fértil) da autora. Qualquer semelhança é mera coincidência. Eu garanto!

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

CAPÍTULO 15



Ainda bem que minha resolução era firme. Bem, eu tinha essa vantagem: minhas convicções costumavam ser robustas. Caso contrário, eu poderia ter mudado de ideia com o que aconteceu a seguir. Em outros tempos, seria mais que suficiente para me convencer de que eu não queria nada daquilo. É incrível perceber como certas situações me serviram de desculpa durante tanto tempo.

Decidi me abrir com Nina. Eu precisava falar com alguém sobre tudo o que estava acontecendo comigo.

Então, saí do isolamento e fui à casa da minha irmã.

- Oba! Minha irmã reclusa deu o ar da graça! – ela comemorou assim que me viu.

Era brincadeira, mas eu sabia que Nina estava preocupada comigo. Aliás, ela andava tensa desde que Inácio tinha ido embora. Ela era muito maternal. Agora eu conseguia reconhecer, embora nunca tivesse dado o devido valor a isso.

Contei a ela, de forma resumida, o que experimentei internamente naqueles dias e concluí, dizendo que tinha decidido me dar uma chance no que dizia respeito à maternidade. Se Inácio ainda estivesse disposto, o que eu não tinha certeza, eu ia tentar engravidar. Os olhos de minha irmã se encheram de lágrimas. Ela se emocionou profundamente e aquilo acabou me deixando emocionada também.

Infelizmente, Maurício, o homem que não dava uma dentro, chegou em casa naquele exato momento. Entrou pela porta da sala e nos encarou, perplexo.

- O que está acontecendo?

- Nada, meu amor. Apenas me emocionei com algo que a Tessa acabou de me dizer.

Nina era muito delicada. Tomei nota daquilo. Eu precisava aprender muitas coisas com ela.

Maurício me olhou, buscando uma confirmação. Eu não disse nada.

Então, ele se virou para Nina e falou, sem um pingo de sensibilidade:

- Você é tão dramática, Nina!

Aquele comentário foi como um balde de água fria.

Tive vontade de dizer a ele algumas coisas que estavam entaladas há anos. Contudo, eu tinha me proposto a mudar. Ser uma nova Tessa. E isso implicava evitar confrontos inúteis, com efeitos colaterais devastadores. Eu acabaria magoando minha irmã, a única pessoa ali que não merecia ser chamuscada. Por isso, respirei fundo e não disse nada.

       Acho que Maurício ficou decepcionado com o silêncio geral. Tive a impressão de que ele desejava uma contenda. Devia ter tido um dia ruim e, quando me viu, vislumbrou uma adversária à altura. Sim, porque ser grosseiro com Nina não faria com que ela reagisse, mas faria com que eu partisse em sua defesa imediatamente. Em outros tempos.

       Sem nos dar nem “boa noite”, ele caminhou pelo corredor e desapareceu, o que foi um alívio. Contudo, para minha consternação, seu sumiço durou pouco. Logo, ele voltou, vestido casualmente, livre dos vestígios de sua persona profissional (mas, infelizmente, sem ter conseguido se livrar dos vestígios de sua persona bestial) e despejou uma série de perguntas (que mais pareciam acusações) sobre Nina:

       - As meninas já tomaram banho?

       - Sim.

       - Fizeram o dever?

       - Fizeram.

       - Jantaram?

       - Jantaram – Nina respondia a tudo calmamente. Eu não entendia como ela conseguia.

       - Você não deu porcaria, né?

       - Claro que não. Comeram salada, arroz integral, feijão e carne.

       - Ótimo!

       Ele entrou na cozinha.

       Aquele stress todo era porque ela estava ali perdendo tempo comigo? Dando atenção à sua irmã, quando deveria estar cuidando exclusivamente das meninas? Ele estava ressentido com o fato de Nina estar me consolando?

       Então, quando parecia que não poderia piorar, ele voltou, com a fisionomia alterada.

       - Você esqueceu a janela da área de serviço aberta. Choveu lá. Quando terminar aí, seca tudo, porque está perigoso. As meninas podem escorregar.

       Dessa vez, tive que respirar muito fundo. Profundamente. Por que ele mesmo não secava? E que cobrança bizarra era aquela? Aquilo ali era uma instituição militar e minha irmã tinha que ser o soldadinho perfeito?

       Nina ficou mortificada, como se tivesse cometido um crime grave. Fiquei com muita pena dela, porque percebi que Maurício conseguiu atingir o alvo.

       Decidi ir embora, pois estava claro que era a minha presença ali que estava incomodando. Despedi-me das meninas e de Nina e parti, sem me preocupar em dar tchau para Maurício.

       No carro, a caminho da Vila Mariana, tentei entender aquele desequilíbrio óbvio no casamento da minha irmã. Ela era tão boa e doce. Por que o marido a tratava tão mal? De forma tão injusta? E por que ela não reagia? O fato de ser tão boa e doce tinha a ver com isso?

       Lembrei-me então de um artigo recente que havia lido. Nele, o autor, Yashar Axi, falava de um tipo de bullying ainda desconhecido pela maioria: o bullying sexista. Comecei a achar que Maurício se encaixava em sua descrição.

       Yashar explica que frases como “Você é tão sensível”, “Você está exagerando”, “Calma! Relaxe! Pare de surtar”, “Você está louca! Eu estava só brincando, não tem senso de humor?”, entre outras, não são falta de consideração, como se costuma pensar, mas manipulação emocional, pura e simples. Da pior espécie.

       Segundo ele, há uma epidemia disso atualmente, que define as mulheres como loucas, irracionais, exageradamente sensíveis e confusas. Ele chama esse tipo de reação de “gaslaitear”, que, na verdade, é uma adaptação para o português do termo “gaslighting”, usado com frequência por profissionais da área de saúde mental para descrever comportamento manipulador usado para induzir pessoas a acreditarem que suas reações são insanas.

        Um parêntese para dizer que o termo original se deve ao filme Gaslight, produzido pela MGM, em 1944, e estrelado por Ingrid Bergman. Na história, seu marido, interpretado por Charles Boyer, quer tomar sua fortuna e se dá conta de que pode conseguir isso fazendo com que ela pareça louca e seja recolhida a uma instituição mental. Para tanto, ele prepara as lâmpadas de gás (no inglês, “gaslights”) de sua casa para ligarem e desligarem alternadamente. Toda vez que a personagem reage a isso, ele alega que ela está vendo coisas. Daí que uma pessoa gaslaiteadora é aquela que apresenta informação falsa para alterar a percepção da vítima sobre si mesma. Tenho verdadeira aversão a homens que fazem isso.

        O autor enfatiza ainda que a forma de gaslaitear nem sempre é premeditada ou intencional, como no filme, o que a torna ainda mais sutil. Na relação entre Nina e Maurício, eu notava claramente como as falas dele provocavam tristeza e frustração nela. E, quando ela reagia, o que era extremamente raro, ele a fazia se sentir desconfortável e insegura, como se seus sentimentos fossem anormais ou irracionais.

        E por que isso acontecia, afinal? Yashar responde: Porque é muito fácil manipular emocionalmente quem foi condicionado pela sociedade nesse sentido. Os homens continuam a impor isso sobre as mulheres pelo simples fato de que elas não recusam esse fardo. Ponto final.

        Algumas vezes, os comentários irônicos soam inócuos e aparecem entre sorrisos: “Você é tão sensível”. Mas, de fato, o que está embutido ali é uma crítica. Naquele contexto, a pessoa está emitindo um julgamento sobre como a outra deveria se sentir.

        Lidar com isso, felizmente, não é uma verdade universal para todas as mulheres. Inácio não é um gaslaiteador. O que me faz admirá-lo ainda mais. Talvez a experiência com Maurício tenha tido esse caráter instrutivo: me fazer enxergar, mais uma vez, o quanto Inácio era um homem distinto. Estando entre muitos, ele pensava e agia como ele. Uma raridade.

        Por que Nina suportava o peso da neurose do marido? – era a pergunta que eu tentava responder. Eu tinha medo de que ela acabasse se tornando emocionalmente muda. Ou passivo-agressiva. Lembrei de seus muitos “Me desculpe” e “Sinto muito”. E aí recordei que Irene tivera comportamento parecido em nossa breve conversa ao telefone: “Sinto muito, Tessa”, “Me desculpe, Tessa”. Será que ela passava (ou passou) por algo parecido? Seria seu ex-marido ou seu chefe um gaslaiteador? Foi isso que a fez se apaixonar perdidamente pelo meu marido, um homem incapaz de matar uma mosca com as mãos, o que dirá constranger emocionalmente uma mulher? Eu não tinha como saber. Talvez nunca tivesse nenhuma dessas respostas. O que eu sabia é que a forma como um homem (que importa, é claro) nos vê impacta enormemente o modo como nós mesmas nos enxergamos. Raramente, é diferente. O comportamento gaslaiteador rouba algo precioso de uma mulher: sua voz. Vai minando, dia a dia, o que ela tem de mais rico. E constrói publicamente a imagem das mulheres como loucas. Enxergar isso é uma libertação!

       Muitas teorias apontam o que estaria por trás desse comportamento, que acaba sendo rotulado de “a neurose dos homens”.  Seria a crença masculina de que as opiniões femininas têm (ou deveriam ter) menos peso que as deles? Que o que as mulheres têm a dizer e o que sentem não é tão legítimo quanto o que eles dizem e sentem?

       Ainda acho que alguns homens simplesmente não sabem lidar com o brilho de suas companheiras, sejam elas namoradas, esposas ou colegas de trabalho. Necessitam competir com elas e diminuí-las para provar sua força. Mas essa assertiva pode servir também para aquelas mulheres que competem com os homens e não sabem administrar o sucesso do parceiro. Cada vez mais, tenho visto isso. E lamento profundamente que as mulheres estejam se esforçando tanto para se igualar aos homens no que eles têm de pior. Nisso me incluo também.

       Anne Morrow Lindbergh, citando o poeta alemão Rilke, fala sobre uma relação em que prevaleça um amor mais humano – que se basta, infinitamente respeitoso e delicado. Em síntese, um amor em que as duas solitudes se protejam, se toquem e se acolham. Um relacionamento de pessoas, não de gladiadores. Era o que eu queria ter com Inácio, a partir dali. Até então, eu vinha me comportando como uma gladiadora sanguinária. Talvez ele não fosse um gaslaiteador, mas eu sim.

       Lembrei-me, com uma pontada de dor, de que Inácio sempre contra-atacava as minhas grosserias com delicadezas. Ele não fazia o menor esforço para lançar uma contraofensiva, e isso muitas vezes chegou a me irritar. Ele era gentil e educado. O oposto de Maurício. E de mim também. Era duro admitir, mas era verdade. Aos meus comentários debochados, ele sempre devolvia um suspiro sincero.

       Voltando a Rilke, eu reconhecia que o panorama traçado era belíssimo. Mas havia uma pergunta que não queria calar: como alcançá-lo na vida real? Como conseguir um casamento assim fora das palavras de um poeta?

       Pela primeira vez na vida, não encarei isso como uma tragédia. Era, sim, um conceito bonito e teórico. Uma bela imagem. E eu devia me lembrar de que a teoria sempre precedia a exploração. Dizer que era utópico e inacessível resolveria a questão, mas eu precisava ir além. Não pretendia alcançar o céu, mas queria (e queria de verdade) elevar a nossa relação a um patamar superior. Estava realmente disposta a amadurecer e a dar demonstrações disso com atitudes conscientes, respaldadas por um propósito sincero, que era o resultado do meu encontro comigo mesma, com o meu núcleo verdadeiro. Um encontro que tinha começado a acontecer na Vila Mariana e que estava em curso naquele exato instante.

       Voltei então à Nina e lamentei que seu casamento mantivesse um padrão tão ultrapassado de dominação e submissão, possessividade e competição, e que ninguém ali estivesse sinalizando uma mudança.

       Maurício era um homem controlador e sufocante. Ele queria decidir tudo, todas as coisas tinham que ser feitas do seu jeito ou com o seu aval, senão não eram boas o suficiente. Estava sempre apontando o que Nina não tinha feito ou não tinha executado com perfeição. Eu ficava horrorizada com o nível de exigência dele e com a submissão dela. Isso era tão óbvio, que até mesmo Inácio, que via bondade em tudo, reconheceu, certa vez, que Maurício tolhia Nina.

       Infelizmente, eu não sabia como abordar essa questão com ela. E não sabia também se tinha esse direito. Contudo, algo vinha me preocupando: as meninas eram uns doces, mas estavam começando a reproduzir o comportamento do pai. Estavam se mostrando superexigentes com Nina e, vira e mexe, faziam críticas a ela e ao seu desempenho – se ela não conseguisse ser uma mãe ultrassônica, estava seriamente encrencada.


 
---------------------------------------------------------------------------------

 

          Quando estacionei em frente à casa, avistei Daniel no jardim, em frente ao seu chalé. Ele tinha voltado. Acenei de longe, mas ele fez um sinal para que eu me aproximasse. Achei que seria indelicado recusar. Então, caminhei em sua direção. E, no trajeto, notei que havia algo diferente nele. Seu rosto parecia inchado. À medida que me aproximava, vi que sua testa, seu nariz e suas bochechas continham vários cortes e hematomas.

   - O que houve, Daniel?

   - Você não vai acreditar, Tessa... – os músculos do seu rosto se contraíram. Trombei com um morcego.

   - O quê? - perguntei, desconcertada.

  - Voltei de viagem ontem à noite e saí para uma pedalada. Lá pelas tantas, dei de cara com um morcego.

   - Você está brincando! - falei, tentando segurar o riso.

   - Não, é sério. Sempre ouvi dizer que esse bicho tinha radar, sonar, sei lá o que, mas não tem porcaria nenhuma. Deu de cara comigo e cravou suas garras em mim.

   - Que horror!

   - Olha esses cortes! - apontou o rosto.

   - Você foi ao hospital?

   - Não! Desinfetei e fiz um curativo eu mesmo.

  - Você devia ter ido, Daniel. Morcegos transmitem raiva. Puxa, esse corte aqui foi profundo, hein?! - apontei sua bochecha direita.

   - Acha que vai ficar uma cicatriz?

   - Este é o menor dos seus problemas. O seu morcego pode estar infectado. Procure um médico.

   - Quem você sugere? Seu marido? – Daniel estreitou os olhos, com ar de desprezo.

  - Bem, se ele estivesse aqui, certamente te encaminharia a um hospital.

   - Não, não vou.

          Fez uma pausa e completou:

   - Estou furioso com esse bicho!

   - Bom, é um dos sintomas. Cuidado!

          Logo me arrependi da brincadeira.

   - Se precisar de algo, pode contar comigo, Daniel. Se decidir ir ao hospital, posso te levar.

   - Ok, Tessa, mas não vou mesmo.

          Assim que fechei a porta de casa, dei uma risada. Coitado! Era trágico, mas era cômico também. Nunca ouvi falar de ninguém que tivesse dado de cara com um morcego. E só então me dei conta do simbólico por trás daquilo. Justo um morcego? Seria um sinal?
 
 
 
 
          Texto: Cynthia França
 
          Revisão: Arilma Peixoto
 
          Colaboração: Anita Lima, Licínio Porto, Lorena Porto e Lucíola Pereira


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

CAPÍTULO 14



Leila Ferreira diz que talvez a gente escolha o que consegue, não o que quer. Nossas limitações é que definem, em grande medida, como vivemos.

Sempre me perguntei se minha vida consistia numa fuga, ao invés de uma busca. Apesar disso, nunca me empenhei o suficiente para obter uma resposta.

Tinha chegado a hora. Não dava mais para adiar.

Iara não teve tempo para criar o roteiro de vida com que sonhou. Eu ainda tinha. Mas precisava descobrir que roteiro era esse.

O mais tentador era responsabilizar Inácio pela situação caótica do nosso casamento e aceitar a solução mais “fácil” – encontrar um novo parceiro “mais compreensivo”. Mas isso não colava mais.  Depois que você compreende certas coisas, é impossível voltar atrás.

Optei por um novo isolamento na Vila Mariana. Alegando stress, consegui alguns dias de licença. Felizmente, Daniel tinha viajado a trabalho. Não que ele representasse algum risco àquela altura. Mas a quietude na casa vizinha era providencial. O contato com a natureza também. Acho que já deixei bem claro que a imersão no mundo natural sempre se revestiu de um significado especial para mim. Sinto-me em paz, em harmonia comigo mesma, ou o mais próximo disso.

Naqueles dias, fiz uma opção incomum: nada de TV, nada de livros, nada de nada. Apenas eu comigo mesma. Algo me dizia que somente assim eu seria capaz de permitir que o genuíno florescesse. E quando digo genuíno, quero significar aquilo que é meu de verdade, que me pertence desde sempre. O que está dentro de mim, mas não está visível.

Obviamente, não foi tarefa fácil. A sensação de estar me rebelando contra a minha própria mente me assaltava o tempo inteiro. Mas consegui manter o propósito de viver de uma forma mais primitiva. Eu queria me esvaziar para, em seguida, me preencher. E, nesse processo, tentar apagar algumas marcas aparentemente indeléveis.

Não tinha a mínima ideia do que seria lançado ao meu consciente. Mas – e nesse “mas” está a questão mais importante - precisava correr o risco. Esse era um salto importante.

Eu já sabia que não se tratava de escavar ou desenterrar. Bastava estar aberta e sem exigências. Seria um encontro comigo mesma. Uma oportunidade de me reconhecer e me abraçar. Um plano ambicioso? Nem tanto. Eu diria que era um plano delicado.

No início, tudo o que senti foi uma apatia profunda. Porém, aos poucos, fui conseguindo me conectar comigo mesma.

Sempre usei as disciplinas intelectuais como formas de defesa contra a sensibilidade. Tinha chegado a hora de escutar o sentir.

A escuridão me acompanhou enquanto caminhei pelo jardim na terceira noite. Sentei-me em um banquinho de pedra e ouvi o som dos grilos. Observei a lua. O cheiro de terra molhada e a brisa fresca eram reconfortantes. Aos poucos, eu conseguia me desprender da minha ansiedade.

A resposta para tudo estava dentro de mim, eu sabia. Mas, para encontrá-la, eu teria que ser honesta comigo mesma, o que implicava reconhecer que a liberdade que eu tinha para escolher se referia inclusive à possibilidade de trocar de concha, como o caranguejo-eremita. Mas essa constatação não me assustou. Àquela altura, a minha concha já não servia mais e eu tinha noção do que me esperava. E sabia também que, se decidisse por um filho, aquilo não poderia ser um fim em si mesmo, mas a base para uma nova relação, mais profunda - comigo mesma, com Inácio e com a criança.

O medo de perder a minha identidade desapareceu. Entendi que só a encontraria – a verdadeira identidade - quando mergulhasse em meu interior e me conhecesse profundamente. Para isso, eu precisaria me livrar de todo o peso morto.


 --------------------------------------------------------------------------------


   Gloria Steinem disse que o primeiro problema para todos nós, homens e mulheres, não é aprender, mas desaprender. Eu que o diga!

           Naqueles dias, convivi de perto com a insatisfação, a inquietude, o medo, o desespero e a nostalgia. Alguns diriam que são as dores inerentes ao crescimento. Acho que são mesmo.

           Decidi confrontar os meus fantasmas, um a um, numa tentativa de exorcizá-los. No fim, você dirá se me saí bem ou não.

           Parti do ponto menos crítico para mim: o meu desejo de ser amada com exclusividade por Inácio. Para alguns, pode parecer horroroso e cruel, mas garanto que foi a parte mais fácil.

           Fui privada do amor de mãe, isso não é novidade para ninguém. E por mais que meu pai tenha feito malabarismos para exercer os papéis que cabiam a ele e a ela, ficou uma lacuna. Afinal, ele não tinha superpoderes.

           Com a conveniente desculpa da ausência materna, eu convenci a mim mesma de que tinha direito a um amor exclusivo e joguei esse fardo nas costas de Inácio, um homem bom, que estava disposto a me amar, mas não incondicionalmente. Foi essa percepção que me sacudiu e me obrigou a sair da minha zona de conforto e acender as luzes.

           A partida dele me fez enxergar que o amor exclusivo é um erro. Não há nada único e exclusivo, há momentos assim. E desejar isso é negar o crescimento, é negar a realidade. Não dividir o amor de Inácio com um filho era uma desculpa egoísta e ilusória. Até Mel era capaz de entender isso. Certo dia, ela me disse: “Tia Tessa, no coração humano cabem muitos amores”. Na época, achei bonitinho, mas infantil. Agora começava a fazer sentido.

           Foi preciso aceitar também o fato de que retornar a uma forma antiga de relacionamento estava fora de cogitação. Não ia acontecer. Inácio tinha dito que as pessoas mudam, e o relacionamento tem que acompanhar. Ele estava certo. É impossível manter um relacionamento numa forma única. E isso não deve ser visto como uma tragédia. Todos os relacionamentos vivos mudam, sofrem expansão, ensaiam novas formas. Digo vivos, porque os cristalizados são outra história.

           Portanto, não é válido dizer: “Você disse isso”, como se fosse a garantia inabalável de algo. Sim, Inácio disse que não fazia questão de ter filhos há dez anos. Mas ele mudou de opinião. Sempre fiz coro à “metamorfose ambulante” de Raul Seixas. Então, o que havia de errado naquilo? Por que eu estava tão furiosa com ele? Eu desejava um Inácio sempre igual, estacionário?

           Meu marido mudou muito no decorrer dos anos, e a doença alterou muitas de suas percepções. É natural. E positivo. Ele tinha amadurecido, embora me custasse admitir. E o desejo de ser pai veio nesse pacote. O que eu devia fazer? Deixar nosso casamento morrer de atrofia num padrão ultrapassado, ou mudar de padrão, partindo para novas experiências?

    Esse era o grande impasse. E algo me dizia que, para sobreviver, nosso relacionamento teria que provar que era dinâmico o suficiente para abraçar essas mudanças.

   Até aí, parece simples? Então, vamos complicar um pouco mais.

   Abraçar as mudanças que Inácio pleiteava significava me desapegar de muitas coisas – do meu orgulho, da minha vaidade, das minhas ambições (falsas ou não), das máscaras, das armaduras. Passei a vida alegando que fui moldada de acordo com a minha trágica história de vida. Minha luta pela sobrevivência é o que mais sobressaía quando olhava para trás.

  Durante a infância e a adolescência, e, depois, também na fase adulta, fui me agarrando a algumas conclusões em relação aos acontecimentos da minha vida. Cada mente reage, aceita e cria o que quer. Eu criei verdades absolutas para mim, e isso gerou uma programação interna específica, que definia o que eu precisava, e o que não precisava, para ser feliz. Tudo feito de forma inconsciente. Essas conclusões geraram alguns limitadores de comportamento, entre eles o “não ser mãe”, como única forma de me salvar frente ao perigo iminente que isso representava.

  Para sair desse círculo pernicioso, eu precisava começar por me libertar da culpa que carregava sobre os ombros. Eu me culpava pela partida da minha mãe. E me culpava também por sentir coisas ruins em relação a ela.

         Ela partiu por causa DELA, não por MINHA causa - meu pai repetiu isso a vida inteira. Ela tinha sérios problemas de saúde, eu não tinha problema algum. Muito provavelmente, ela fez o melhor para todo mundo. Já vi mulheres causarem males irreparáveis a suas famílias por não conseguirem lidar com os efeitos devastadores de uma depressão severa. Eu sabia o que era ficar deprimida. Era horrível! E o que aconteceu com ela era uma incógnita. Ela podia estar morta, ou se tratando até hoje. Eu não tinha como saber. E fantasiar a respeito não ajudava nada.

         Eu precisava abandonar também as expectativas em relação a ela, de uma vez por todas. Ela não ia voltar. E não ia me compensar por tudo. Ponto final.

         Durante muito tempo, embarquei na fantasia de que se ela voltasse e fosse legal comigo, ou se, ao invés disso, eu fosse horrível com ela, eu acabaria me sentindo melhor. Essas expectativas, contudo, só me causaram decepção e sofrimento. Era preciso mudar de perspectiva. E isso significava abandonar, de vez, aquela velha história de “a minha vida é um desastre, e a origem de tudo isso é a minha mãe”. Chega! Eu não podia me comportar como uma vítima. O que estava acontecendo na minha vida era resultado das minhas escolhas, que, por sinal, não foram muito conscientes.

         Cresça, Tessa!, repeti várias vezes. Você é que escolhe o que vai viver, é SUA responsabilidade. Pare de se comportar como uma criança abandonada e enfrente o mundo como uma mulher adulta. Chega de colocar a culpa nela! E de se culpar por ela. Não perca mais tempo acusando ninguém! Simplesmente viva!

          Isso não significava excluir a minha mãe da minha vida, até porque era impossível. O que eu precisava era transformar a minha relação com ela. E parar de me ver nas ações dela.

          Esse foi um momento difícil e crucial. Com uma súbita clareza, enxerguei a pior verdade de todas: eu estava ficando cada vez mais parecida com a minha mãe, aquela de quem tentei ser completamente diferente, com todas as minhas forças, a vida inteira. Deprimida, frustrada, desesperada, insatisfeita com a vida, eu estava ali sozinha, isolada, longe do homem que amava, presa à crença de que um filho seria a ruína da minha vida.

         Abro um parêntese para dizer que, na adolescência, cheguei a desejar não ser eu mesma. Em momentos de aflição, em que não sabia como lidar com a frustração, cheguei ao ponto de morder a pele dos braços e puxá-la com os dentes, numa tentativa desesperada de me despregar de mim mesma. De me tornar outra pessoa. Nunca contei isso para ninguém. Nem para os médicos que me trataram. Parecia errado. Além disso, admitir o fato para os outros era admiti-lo para mim mesma, e eu não estava preparada para isso.

          Que libertação! Senti as lágrimas brotarem ao mesmo tempo em que experimentei um imenso alívio. Aquilo foi uma espécie de linha divisória para mim: reconheci que tinha medo (muito medo) da mulher em que eu poderia me transformar. Ficava olhando para o passado e temia o futuro. Mas era incapaz de encarar o presente. O maior medo de todos não era ser mãe, mas me tornar a minha mãe. Paradoxalmente, eu ficava cada vez mais parecida com ela.

          Um marco! Mas eu não sabia bem o que fazer ainda. Tinha certeza de que não queria (e não podia) continuar a me sentir daquele jeito com relação à minha vida e ao meu passado. Precisava também subir mais alguns degraus no processo de autoconhecimento a que eu tinha dado start.

          As frustrações com que me deparei na infância e na adolescência me fizeram acreditar que o mundo era um lugar hostil. Assim, criei um mecanismo de defesa “poderoso” para tentar sobreviver na selva. O meu plano era ter controle absoluto sobre tudo. Foi Iara quem me abriu os olhos para essa aberração.

          Para controlar o mundo, eu aprendi a me esquivar, a me retrair, a fazer de conta que não me importava com as coisas e as pessoas, a reagir agressivamente quando me sentia ameaçada, a explicar ou a justificar os fatos para me defender ou evitar um julgamento. Enfim, criei técnicas, jogos e simulações. Tentei racionalizar tudo.

          Resultado: Inácio foi embora. Batalha perdida.

  A única saída era abrir mão do controle e me entregar para a vida. Me jogar.

          Mas como uma pessoa que passou anos morrendo de medo faz isso de um dia para o outro? Como parar de manipular as situações? Como me sentir segura?

          Era assustador.

          Mesmo assim, reconheci que o primeiro passo consistia em aceitar que eu estava tentando controlar algo. Ou melhor, tudo. E me acolher. Bastava de julgamentos e acusações.

          Sim, eu fazia isso. O tempo todo. Nunca estava aberta para receber. Não ousava optar por situações novas que envolviam riscos com medo de perder o controle. Sempre que surgia uma situação em que o controle exercido era mínimo, ou nenhum, o medo surgia e me paralisava. Uma pausa para dizer que, até certo ponto, isso é natural. No meu caso, contudo, era patológico.

          O segundo passo era encontrar um meio de me entregar e deixar a vida acontecer. Mais apavorante que o primeiro.

          Durante toda a vida, o meu Ego, com sua percepção distorcida, me fez acreditar que aqueles resultados eram os certos, os ideais. E muitas coisas se perderam, porque não foram percebidas. Eu não teria como saber que resultado seria o ideal enquanto o Ego dominasse.

          Na atitude de entrega, eu precisaria confiar e contar com a minha intuição.

          Cansei de bradar que era livre para escolher o que quisesse, que fazia o que bem entendia. A grande questão era: fazia mesmo? Até onde ia o meu livre-arbítrio? Ou tudo não passava de utopia? Na realidade, escolhia os melhores caminhos ou aqueles em que podia controlar tudo com mais facilidade, poupando-me assim dos riscos e dos sustos?

          Lembrei novamente de Iara. As escolhas eram individuais, pertenciam a cada um. A vida passa rápido. Eu devia caminhar para ser quem realmente era ou continuar me comportando como uma marionete?

          E quem eu realmente era?

          Para descobrir, eu precisava me soltar, me entregar, permitir que a vida fluísse. Aquela constatação me encheu de medo.

          Apesar disso, sabia que precisava abrir as portas e me lançar além.


--------------------------------------------------------------------------------- 


  Era o que eu faria. Estava decidido. Foi difícil assumir as minhas fragilidades e me dispor a dar um passo adiante. Mas eu tinha conseguido e agora precisava mudar o meu padrão de comportamento.

  Não existia o fora, existia o dentro – era o que eu repetia para mim o tempo inteiro. Era ali, dentro de mim, que encontraria todas as respostas. E esse exercício de olhar para dentro tinha que ser feito com muita limpeza e muito amor. De uma forma como nunca fizera antes.

  Eu precisava me dar liberdade para crescer. Precisava também correr riscos. Isso significava estar vivo. Era o que Inácio sempre dissera. E ele estava certo.

  Queria muito reencontrá-lo, mas sabia que não dava mais para ser como antes. Eu e ele teríamos que nos encontrar agora como dois seres inteiros, maduros. Somente assim poderíamos dialogar. Sim, porque tudo não era só uma questão de necessidades diferentes a serem satisfeitas. Eu tinha entrado por um desvio. Caminhávamos em direções e ritmos diferentes até aquele momento. Um novo relacionamento teria que ser criado a partir daquele ponto. Um relacionamento mais justo no vincular e no libertar. Esse era o grande desafio. Eu seria capaz disso?

  No início, cheguei a acreditar que, por Inácio, tudo valia a pena. E não deixa de ser verdade. Contudo, o que me deu forças e convicção para seguir em frente foi entender que valia a pena por mim também.

  Então, de posse de uma coragem que eu ainda tateava, decidi me lançar em mar aberto, sem bússola.


  O capítulo 15 será publicado na sexta-feira, dia 29 de novembro.
  Cadastre-se no blog para receber as atualizações semanais.

  Texto: Cynthia França
  Revisão: Arilma Peixoto
 Colaboração: Adriano Machado, Anita Lima, Licínio Porto, Lorena Porto, Lucíola Pereira

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

CAPÍTULO 13


Muita informação! Não dormi direito e acordei com um pouco de enxaqueca.

Para completar, era o aniversário de Inácio. Conforme o combinado, eu só deveria ligar se fosse uma emergência. Contudo, aquela ocasião era especial. Seria muito estranho se eu não falasse com ele naquele dia.

        Eu ainda não telefonara nem uma vez para ele. Tivera dois impulsos quase irresistíveis, mas ambos aconteceram quando, pelo fuso horário da Itália, era o meio da madrugada, então consegui me controlar.

        Liguei para o apartamento de Enrico logo cedo. Suspeitava que Inácio não estava deixando o celular ligado. Para evitar contatos. Meus e da clínica.

       Dois toques depois, ele atendeu. Reconheci a voz grave e estremeci.

- Inácio!

- Oi, Tessa!

- Eu não podia deixar de falar com você hoje – fui logo me justificando.

- Não, claro que não – disse, compreensivo.

- Como você está? - não aguentei, eu precisava saber dele.

- Estou bem, e você?

- Estou indo – respondi, sincera.

       Um silêncio constrangedor se interpôs.

       Decidi interrompê-lo.

- Então... Queria te dar os parabéns!

- Obrigado, Tessa.

- 43, hein?!

- Pois é...

- Você não parece...

- Pareço, sim.

- Bem... Quais são seus planos para hoje à noite? – uma pergunta que era a cara do meu desespero.

- Sair para tomar umas cervejas com o Enrico.

- E quem mais? – desespero ao quadrado.

- Mais ninguém – ele respondeu, calmo.

       Parecia sincero.

- Inácio... Preciso te fazer uma pergunta. Tudo bem?

- Claro, Tessa.

- É sobre o sêmen que você congelou... Quem pode retirá-lo?

- Que pergunta estranha!

       Novidade! Sempre fui Tessa, a estranha.

- Apenas responda.

- Eu, naturalmente.

- Foi o que pensei.

- Por que, Tessa? Qual é a relevância disso?

- Mera curiosidade. Então... Tenha um ótimo dia! E uma ótima noite!

- Você também. Se cuida!

       Desliguei com o coração partido.

       Inácio ter me tratado cordialmente foi um alívio. Mas o alívio se tornou desagradável com aquele “se cuida” no final da conversa. Nada de “estou com saudades” ou “eu te amo”.

       “Se cuida”: O que aquilo significava? Por que Inácio foi tão seco comigo? Eu me tornei um estorvo, era isso? Ele descobriu um jeito melhor de viver, sem mim? Aquela despedida no aeroporto tinha sido mesmo a derradeira despedida?

       Era terrível saber tão pouco sobre o que estava se passando na mente dele.


 --------------------------------------------------------------------------------


        Tive uma manhã péssima e, na hora do almoço, resolvi ir ao meu apartamento descansar um pouco. Estava sentindo ânsias de vômito.

        Entrar no apartamento e percorrer seus cômodos era encontrar a lembrança mais palpável de Inácio. Será que era isso que Iara pretendia manter com o filho: a lembrança palpável do marido, que só parcialmente se teria ausentado? Seria uma forma de negar a morte, ou de estender a vida?

        Deitei-me no sofá da sala e coloquei o protetor de olhos. Não fazia cinco minutos que estava ali, o telefone tocou. Eu deveria ter previsto aquilo. Era aniversário do Inácio, e os desavisados iam ligar. Eu não teria sossego.

- Alô!

- Boa tarde, eu gostaria de falar com o Dr. Inácio – uma voz feminina falou, educadamente.

- Quem está falando?

       Uma pausa discreta.

- Meu nome é Irene. Sou paciente dele.

        Pronto! Meu mundo desabou.

        Respirei fundo.

- Ele não está, Irene.

- É... Você é a esposa dele?

- Sim. Sou a Tessa.

- Oi, Tessa. Me desculpe pelo incômodo. Tentei falar no celular, mas estava desligado. No consultório, me disseram que o Dr. Inácio estava licenciado, mas não quiseram dar detalhes. Fiquei preocupada. Cheguei a pensar que, talvez, ele estivesse doente. Por isso, estou ligando para sua casa.

- Ele está bem. Não está doente. Só está viajando – respondi maquinalmente.

- Ah, que alívio! Bem, eu só queria parabenizá-lo pelo aniversário dele.

        Não consegui mais me conter. Aquilo estava teatral demais.

- Sei quem você é, Irene.

- Como?

- Inácio me mostrou as cartas.

- Ah... Sinto muito, Tessa. Não sei o que dizer...

- Que tal dizer a verdade?

- Que verdade?

- O que você quer com ele? Por que ligou?

- Eu só queria dar os parabéns...

- Resposta errada, Irene. Você pode fazer melhor que isso.

Ela permaneceu em silêncio por um tempo.

- Olha, Tessa, eu sinto muito mesmo.

- Não, não sente. Sei disso, porque li as cartas. O que eu quero saber é: você ainda está apaixonada por ele?

- Tessa...

- Você me deve essa resposta, Irene.

O prolongado silêncio foi a minha resposta.

- Eu estou me esforçando... – ela tentou justificar.

- Não está se esforçando o bastante – eu disse, com rispidez. Se ficar telefonando para ele, não vai passar.

- Eu sei... Tenho me controlado, mas hoje é o aniversário dele... Tudo bem, você está certa. É que nunca conheci um homem como ele.

Quase disse que provavelmente não teria outra chance. Homens como Inácio eram raros, e esposas inteligentes sabiam mantê-los. Acho que foi essa última parte que me impediu de completar a assertiva.

- O que você pretende afinal, Irene? – perguntei, num tom exaltado.

- Nada, eu juro.

- Então deixa o meu marido em paz.

- Eu vou deixar, prometo a você. Só preciso saber que ele está bem. Por favor, me diga a verdade. Sei do câncer, ele me contou...

- Ele está bem, apenas viajou – eu já estava impaciente.


Que legitimidade ela tinha para exigir aquelas informações?


- Está tudo bem com vocês?

       Meu Deus, ela não tinha desistido! Embora dissesse o contrário.

       Que ódio eu senti naquele momento. Tive que me controlar muito para não bater o telefone na cara dela.

- Não é problema seu, Irene.

- Sei disso. Me desculpe. Você vai dizer a ele que eu liguei?

- Não, não vou.

- Eu não sou uma pessoa má, Tessa.

- Nunca achei que fosse .

- Bem, então...era isso.

- Ok, Irene. Se cuida. E não liga mais para cá.

Joguei o “se cuida” de Inácio nela, sem dó nem piedade.

- Não vou ligar – ela garantiu, num tom derrotado.

Inacreditável!

Assim que desliguei, fiquei imaginando se deveria ter feito um escândalo, recriminando-a, exigindo saber de tudo. Quem ela pensava que era para ligar para minha casa e ficar perguntando sobre Inácio?

Contudo, eu não era assim. Era crítica e sarcástica, mas nunca fui barraqueira. E depois de tudo o que vinha passando nas últimas semanas, não sentia vontade nenhuma de brigar. Além disso, no fundo, eu sabia que não precisava me preocupar com ela. Inácio me deixara e isso não tinha nada a ver com Irene. Tinha a ver comigo.



O capítulo 14 será publicado na quarta-feira, dia 27 de novembro.
Cadastre-se no blog para receber as atualizações semanais.


Texto: Cynthia França
Revisão: Arilma Peixoto
Colaboração: Anita Lima, Licínio Porto, Lorena Porto, Lucíola Pereira